sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Direito de parir

  Não sei se você sabe o que é violência obstétrica, se você já ouviu falar em parto humanizado, se você está ciente sobre a cultura cesarista que nos está imposta, se você tem consciência de todos os aspectos (emocionais, fisiológicos, culturais) que envolvem o nascimento de uma criança ou se você sabe os procedimentos que são feitos aos rescém-nascidos em quase todas as maternidades.
  Quero deixar aqui a minha experiência, sem questionar a de ninguém, apenas apresentando os fatos, que eu mesma não conseguia ver.

  
Um simples relato de como eu tive o meu direito de parir meu filho roubado.

  Com mais ou menos 8 semanas de gravidez fui a minha primeira consulta pré-natal com a médica que vinha me acompanhando por vários anos, acompanhando primas, irmã, fazendo parto de pessoas próximas. Eu estava confusa, buscando o máximo de informação possível sobre aquela nova realidade tão distante do que eu vivia. Depois de uma curta espera eu e minha mãe somos recebidas como sempre: beijos, abraços e cordialidade. "Como vai você princesa?". É realmente confortante chegar em um lugar que nos sentimos tão bem e ser recebida por profissionais que confiamos, o sentimento é sempre de alívio, de que estamos em boas mãos. Bem, pelo menos foi assim que eu me senti no primeiro minuto.
 "Então... Como vai você?? O que a traz aqui hoje?" "Estou grávida!!" "Que ótimo, princesa, um bebezinho novo na família né... Mas você nem pense em fazer parto normal né querida." "Por quê? Não é melhor pro bebe?" "Não é que seja ou não melhor pro bebe, é que é muito ruim pra mãe, sofre muito, depois tem que fazer plastica pra voltar ao normal lá em baixo, cesária é mais tranquilo você marca antes vai lá rapidinho e pronto". Fiquei em silêncio analisando aquelas palavras que me pareciam tão irreais. Fiz uma ultima pergunta antes de ir embora: "A senhora teve suas filhas como? cesária?" "Não, foi normal mesmo...". Mudei de médica.
  Médica nº2, uma médica bem conceituada na cidade, dificílimo conseguir consulta com ela, mas por uma amiga já ser paciente acabei conseguindo um encaixe. Essa médica não me chama de querida e é mais direta, na hora me identifiquei com o jeito dela. Depois de algumas perguntas e pedir alguns exames resolvi expressar o meu desejo de querer parto normal. "Nossa, tão cedo e já pensa nisso? Não tem problema nenhum, vou te passar uma fisioterapeuta própria pra isso e mais tarde conversamos de novo." Saí de lá satisfeita, era o que eu queria: Sentir meu filho nascendo, sentir a passagem dele pra este mundo, saber quando ele estava pronto pra vir, quando era a hora dele nascer, participar ativamente de tudo que envolva aquele serzinho que mora dentro de mim. Nunca tive medo de sentir dor, e você querendo ou não vai sentir dor independente do tipo de parto na hora ou depois, física e emocionalmente. Não existe parto sem dor. 
  Deixei estar e fui me informar mais... Eu sempre fui muito curiosa desde criança, e quando se tratar do meu filho eu sempre vou querer o melhor, sempre vou querer saber cada detalhe que será ou não feito. Buscando informações fiz o que não devia: me iludi com a beleza do parto humanizado onde a mulher realmente participa ativamente do parto do seu filho, onde  ela fica na posição que quiser, sem soro na veia, sem ser obrigada a ficar deitada, sem alguém subindo na sua barriga pro seu filho nascer (mesmo que isso possa causar o rompimento do seu útero ou períneo). Onde o pai está ali do lado, vivendo aquele momento junto, onde o bebe nasce e vai direto pro seio da mãe, deixando-se virar os animais que realmente somos, inundada de hormônios a mãe abraça o bebe, cheira ele, sente ele, sente tudo, sente a chegada daquele ser que se tornou tão importante pra ela naqueles 9 meses, o cordão pára de pulsar, o pai corta. Lindo, cena de filme. Quem se importa com a dor, quando se vai viver um momento tão intenso quanto esse? quanto o nascimento do seu filho?? 
  As vezes penso que essa curiosidade e esse instinto de querer saber de tudo só me prejudica. Os ignorantes é que são felizes, a cada dia mais confirmo isso. Depois de saber tudo isso, ver vídeos, ver o momento das outras e imaginar o meu, ler relatos e me por no lugar, vou descobrir que as coisas não são bem assim. Minha ficha começou a cair quando fiquei internada na maternidade de um hospital daqui. Fiquei internada por problemas de rim, tudo ótimo com o bebe, apenas uns dias de repouso mesmo. Da mesma forma fiquei na maternidade onde havia um grande cartaz explicando a mãe como seriam as coisas depois do parto. O terceiro ou quaro item se não me engano dizia: "em caso de cesária o bebe fica 6 horas em berço aquecido e depois vem pro quarto, em caso de parto normal fica 4". COMO ASSIM? espere aí, então eu vou ficar esperando meu bebe 4 horas enquanto ele esperneia em um berço longe de mim? Por quê? Por que eu não posso ficar com meu filho? Não faz sentido. Uma enfermeira me tranquilizou: a maioria deles so fica 1 hora. Mas 1 hora longe do meu bebe recém-nascido é muito tempo, não tem como eu ficar junto? Não tem...
   Tentei não focar muito nisso e ver as outras maternidades disponíveis. Uma pequena, sem UTI neonatal, diz que o bebe é levado junto com a mãe pro quarto no mesmo momento depois do nascimento, menos mal ne? Minha mãe se preocupa com o fato de não ter UTI mas eu nem ligo, se meu filho estiver saudável e normal nos ultrassons não preciso de UTI. O encanto acabou quando visitando descobri que eu não poderia conhecer a sala de parto e nem saber dos procedimentos que seriam feitos comigo e com o meu filho naquele momento tão único. Como eu não posso saber o que vai ser feito com meu próprio filho? Isso não é ilegal ?? Além disso minha médica não faz partos normais lá pois o centro obstétrico é fechado durante a noite. Hã??? Sério, é muito estranho eu achar tudo isso um absurdo ou estranho é ninguém além de mim achar tudo isso um absurdo?
  A outra maternidade disponível é do mesmo estilo da primeira e em nenhuma das duas eu posso saber os procedimentos feitos a mim e ao meu filho, muito menos o que darão pra ele enquanto ele estiver no bercinho aquecido.
  Então na ultima consulta fui conversar com a minha médica sobre todas essas questões do parto e pra piorar tenho um prazo: se o bebe não nascer até 39 semanas fazemos cesária. 39? Mas não era até 42 que esperava? E se meu beber não nascer até ai? E se ele quiser nascer depois? Eu não posso senti-lo chegando? Eu vou ter que ficar amarrada com os dois braços enquanto médicos tiram cirurgicamente meu filho dali e levam pra outra sala apenas podendo vê-lo por 1 minutinho do meu lado. Por que eu não posso tocá-lo? Por que eu não posso escolher os procedimentos que serão aplicados no meu bebe? Por que ele tem que ficar longe de mim tanto tempo? Será que eu sou a única pessoa nesse mundo que não concorda com nada disso? Por que que todo mundo me fala que cesária é tão bom? Bom mesmo não é abraçar o filho e sentir seu cheiro na primeira hora de vida? Por que eu não posso ter meu bebe na água? ou de cócoras? Por que eu tenho que ficar presa na cama quando ele estiver nascendo? Por que eu não posso viver esse momento plenamente? Por que eu não posso parir? 

Infelizmente eu não tenho todas as respostas que gostaria.



2 comentários:

  1. Oi Ana, muito prazer!
    Conheci seu blog hoje, quando lia o ultimo post da Anne (SuperDuper). Gostei muito dos seus textos, especialmente desse último, de te ver questionando as coisas assim desde o começo da gravidez.
    Que o seu Nico venha com muita saúde!

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  2. Oi Ju, o prazer é meu!
    Obrigada, fico feliz que gostou, questionar sempreee!! Quem não questiona nunca sai do lugar.
    Obrigada, se Deus quiser virá sim :)
    Beijos, volte sempre!

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